quinta-feira, setembro 21, 2006

JUDEUS ou "CRISTAOS-NOVOS" em Sobral Pichorro

Ja em entradas anteriores, me referi a provavel existencia de judeus, mais tarde "convertidos" em cristaos-novos, na antiga povoacao de Soveral, ou Sobral, do termo de Algodres, hoje identificada por: Sobral Pichorro.
Nessas alturas identifiquei um arco em volta inteira com um escudo, como a provavel entrada para as suas casas. (entrada de 9 de Outubro de 2005)
Mais tarde visitando detalhadamente a area, para meu desapontamento, nao consegui descobrir mais nenhuns vestigios, que fossem de encontro com a minha conviccao, pelo que na altura julguei ser unicamente a minha imaginacao a trabalhar. (entrada de 28 de Marco de 2006)

Entretanto e acidentalmente, enquanto verificava algumas "descricoes arquivisticas online" dos arquivos da Torre do Tombo. Descobri um processo do tribunal da inquisicao de Coimbra, do ano de 1620, referindo Marcos Rodrigues, cristao-novo, acusado de judaismo, heresia e apostasia, com morada em Soveral, termo de Algodres.
Alem deste processo, descobri um outro, do tribunal da inquisicao de Lisboa, do ano de 1737, referente a Maria Lucena, acusada de judaismo, moradora em Sobral Pichorro, termo de Algodres.

Estes processos vem por si so, provar que as minhas suspeicoes estavam certas, sim houve judeus a residir no Sobral Pichorro, embora pudessem nao ter vivido nas casas cuja entrada e aquele arco.
Tambem ja divulguei uma outra lapide desta mesma povoacao, que podera muito bem estar relacionada com "cristaos-novos". (entrada de 3 de Maio de 2006)

Depois do explanado, so quero fazer algumas consideracoes:
- Estando provada a existencia de cristaos-novos nesta aldeia, que embora aqui residentes, o primeiro era natural de Trancoso e a segunda natural de Celorico, indicia a existencia de outras familias de origem judaica, pois o mais natural e que tenham vindo para esta terra atravez de casamentos, sabendo nos que os judeus casam entre si.
- No primeiro caso, ate poderia ser uma fuga de Trancoso, para uma aldeia pequena e menos acessivel, para tentar escapar a accao da inquisicao naquela vila, que como se sabe, teve uma das maiores e mais dinamicas comunidades judaicas da Beira.
- Ja no segundo caso, sendo 117 anos mais tardio, indica-nos que embora ja "convertidos" desde 1497, os "cripto-judeus" do Sobral Pichorro, passados que eram 240 anos, ainda praticavam o "judaismo". Coisa mais que normal, pois muitas das conversoes nao o foram por conviccao, mas sim por necessidade.
- Alem do explanado, este ultimo processo, vem deitar por terra, a lenda de que o complemento: "Pichorro" desta freguesia, tem que ver com a terceira invacao francesa, que aconteceu em 1810. Porque 73 anos antes daquela invasao, ja esta povoacao usava aquele complemento identificativo.

3 comentários:

Tozé Franco disse...

Mais um excelente post.
Continuo a ser freguês assíduo.
Um abraço e boas investigações.

JL disse...

As coisas que o meu amigo sabe e as outras que descobre. Fantástico!

Anónimo disse...

Caro Albino Cardoso,
Apenas por curiosidade acabei por consultar alguns artigos na internet sobre Judaismo em Portugal. Curiosidade das curiosidades, encontrei num desses artigos que "Picho" e "Picorro" eram nomes de famílias judaicas, por volta do séc XV. Ora, no séc XV as famílias judaicas de Trancoso prosperavam, os Judeus de Trancoso ganhavam até maior importância que os Judeus da Guarda, por exemplo. Poderá encontrar dados sobre o estes nomes de familia no seguinte artigo http://pwp.netcabo.pt/soveral/mas/judeusecristaosnovos.htm

Quem sabe o nome Pichorro, não esteja associado a alguma família judaica que por algum motivo decidisse estabelecer-se no local de "Sobral Pichorro".

Cumprimentos e Parabéns pelo excelente trabalho.